Quando sabemos, mas não queremos saber

Escolhas, ilusões, repetição e responsabilidade subjetiva na vida contemporânea
“Há escolhas que fazemos conscientemente. Outras parecem acontecer conosco.”
Talvez uma das maiores ilusões do sujeito contemporâneo seja acreditar que conhece suficientemente as razões pelas quais escolhe.
Dizemos “eu escolhi” com uma segurança que nem sempre corresponde à complexidade do ato de escolher. Escolhemos relacionamentos, profissões, amizades, lugares, rupturas, permanências, silêncios e confrontos. Escolhemos aquilo que dizemos desejar e, algumas vezes, escolhemos também aquilo que juramos não querer repetir.
É justamente nesse paradoxo que a psicanálise introduz uma pergunta perturbadora:
será que somos tão conscientes de nossas escolhas quanto imaginamos?
Desde Freud, a concepção de sujeito foi profundamente deslocada. O sujeito deixou de ser pensado como plenamente senhor de sua própria casa psíquica. O inconsciente revelou que existe uma dimensão da vida mental que não se submete inteiramente à vontade consciente.
Sonhamos aquilo que não planejamos sonhar.
Falamos aquilo que não pretendíamos dizer.
Repetimos aquilo que prometemos nunca mais repetir.
Amamos, às vezes, justamente onde dizíamos que jamais voltaríamos.
E sofremos diante de acontecimentos que, em algum nível, parecem fazer parte de uma história que já conhecemos.
A questão, portanto, talvez não seja simplesmente descobrir por que escolhemos, mas investigar o que fala em nós quando escolhemos.
1. Entre a escolha consciente e o desejo inconsciente
A descoberta freudiana do inconsciente modifica radicalmente a ideia de escolha.
O Eu pode formular uma decisão, construir argumentos e apresentar justificativas. Entretanto, a psicanálise nos ensina que a racionalização posterior de uma decisão não necessariamente revela sua verdadeira determinação.
Podemos explicar muito bem aquilo que fizemos e, ainda assim, não saber exatamente por que o fizemos.
É nesse sentido que Freud nos oferece uma das chaves fundamentais para compreender o sujeito: o sintoma, o sonho, o lapso, o ato falho e a repetição podem revelar algo que a consciência não consegue dizer diretamente.
O sujeito não é apenas aquilo que sabe sobre si.
Há também aquilo que não sabe que sabe.
E há aquilo que não quer saber.
Essa última dimensão é particularmente importante.
Porque algumas verdades não são simplesmente desconhecidas.
São verdades das quais nos defendemos.
2. O difícil encontro entre aquilo que vemos e aquilo que queremos acreditar
Há uma forma cotidiana de negação que raramente se apresenta como uma recusa absoluta da realidade.
Ela aparece de maneira muito mais sofisticada.
A pessoa vê o comportamento do outro, mas oferece uma interpretação alternativa.
Percebe a incoerência, mas encontra uma justificativa.
Sofre com a repetição, mas aposta na próxima promessa.
Observa os sinais, mas prefere acreditar na possibilidade.
“Ele estava nervoso.”
“Ela teve uma infância difícil.”
“Foi só daquela vez.”
“Ele vai mudar.”
“Ela me ama, apesar de tudo.”
“Depois que as coisas melhorarem, será diferente.”
A realidade oferece um dado.
A fantasia oferece outro.
E frequentemente escolhemos aquele que nos permite continuar investindo no vínculo.
É aqui que a afirmação popular “ninguém engana ninguém; nós nos deixamos enganar” precisa ser cuidadosamente reelaborada.
Ela não pode ser usada para responsabilizar alguém pela violência ou pela manipulação que sofreu.
Existem mentiras deliberadas.
Existem relações abusivas.
Existe manipulação.
Existe violência psicológica.
Existe gaslighting.
Existe exploração da confiança.
A pessoa enganada não se torna responsável pelo ato de quem a enganou.
Entretanto, depois que a situação pode ser elaborada, outra pergunta pode surgir:
“O que havia em mim que precisava acreditar?”
Essa pergunta não procura culpados.
Procura sentido.
3. A fantasia de mudar o outro
Grande parte do sofrimento amoroso nasce da dificuldade de aceitar que o outro é outro.
Parece uma afirmação óbvia, mas não é.
Em muitas relações, não nos relacionamos exatamente com a pessoa que está diante de nós. Relacionamo-nos também com aquilo que imaginamos que ela possa vir a ser.
Amamos uma possibilidade.
Projetamos um futuro.
Construímos uma promessa que talvez nunca tenha sido feita.
“Quando ele amadurecer…”
“Quando ela perceber…”
“Quando conseguir estabilidade…”
“Quando entender o quanto eu a amo…”
“Quando tivermos nossa própria casa…”
“Quando o filho nascer…”
A relação presente transforma-se em uma espécie de passagem para um relacionamento futuro.
O problema é que podemos passar anos esperando que a pessoa real coincida com a pessoa imaginada.
Na perspectiva lacaniana, essa questão pode ser pensada a partir do campo da fantasia, que participa da maneira como o sujeito se posiciona diante do desejo e do outro.
Não desejamos simplesmente objetos ou pessoas.
Desejamos a partir de uma determinada posição subjetiva.
E, muitas vezes, o que procuramos no outro não é apenas o outro.
Procuramos também aquilo que acreditamos que o outro poderá nos oferecer em termos de reconhecimento, completude ou confirmação de nosso próprio valor.
4. O desejo de ser desejado
Lacan nos conduz a uma questão particularmente fecunda:
o que desejamos quando desejamos ser desejados?
Essa pergunta pode parecer abstrata, mas aparece diariamente.
A pessoa que precisa ser indispensável ao parceiro.
Aquela que precisa receber mensagens o tempo inteiro para sentir-se amada.
Aquele que necessita da aprovação profissional para acreditar que possui valor.
A mãe que sente culpa quando estabelece limites.
O indivíduo que não consegue dizer “não” porque teme deixar de ser querido.
O profissional que trabalha até a exaustão porque precisa provar que merece estar naquele lugar.
Em todos esses casos, pode existir uma pergunta subterrânea:
“Quem sou eu para o outro?”
E talvez essa pergunta seja mais poderosa do que:
“Quem sou eu?”
A contemporaneidade intensificou esse fenômeno.
As redes sociais transformaram o reconhecimento em métrica.
Curtidas, seguidores, comentários, visualizações e exposição pública podem funcionar como pequenos dispositivos de confirmação narcísica.
O sujeito não apenas vive.
Ele passa a observar a própria vida através do olhar dos outros.
E, nesse processo, pode perder o contato com uma pergunta fundamental:
“Eu realmente desejo isso ou desejo ser reconhecido por desejar isso?”
5. A vida brasileira entre o desejo e a necessidade
É necessário, porém, evitar uma leitura individualista do sofrimento.
Não podemos falar de escolhas ignorando as condições concretas da existência.
No Brasil, milhões de pessoas tomam decisões dentro de circunstâncias atravessadas por desigualdade, precarização do trabalho, insegurança econômica, violência, dificuldade de acesso a serviços, responsabilidades familiares e ausência de redes de proteção.
Uma pessoa que permanece em determinado emprego porque precisa pagar aluguel não pode ser interpretada simplesmente como alguém que “escolheu permanecer”.
Uma mulher que não consegue abandonar imediatamente uma relação violenta não deve ser responsabilizada por sua permanência.
Uma pessoa que adia um projeto porque precisa sustentar a família não está necessariamente fugindo de seu desejo.
A psicanálise não deve transformar desigualdade social em patologia individual.
Há circunstâncias nas quais a margem de escolha é efetivamente reduzida.
Mas mesmo dentro de limitações concretas existe, quando possível, uma dimensão subjetiva que pode ser investigada.
Não apenas:
“Por que você não saiu?”
Mas:
“O que tornava possível permanecer?”
E, sobretudo:
“O que seria necessário para que outra possibilidade pudesse começar a existir?”
6. Winnicott e o risco de viver uma vida que não parece própria
Winnicott oferece uma contribuição preciosa para pensar as escolhas que fazemos para sermos aceitos.
O desenvolvimento do chamado verdadeiro self e do falso self permite pensar a diferença entre uma existência que possui espontaneidade e uma existência excessivamente organizada pela adaptação às expectativas externas.
Não se trata de dividir as pessoas entre “verdadeiras” e “falsas”.
A adaptação faz parte da vida.
Precisamos aprender a conviver, esperar, negociar, respeitar limites e considerar o outro.
O problema aparece quando a adaptação deixa de ser um recurso e passa a ocupar quase todo o espaço subjetivo.
A pessoa torna-se aquilo que esperam dela.
A filha que nunca decepciona.
O profissional que nunca falha.
O cuidador que nunca precisa ser cuidado.
O parceiro que suporta tudo.
A mulher que precisa dar conta de tudo.
O homem que aprendeu que demonstrar fragilidade é sinal de fraqueza.
A vida pode funcionar.
Mas o sujeito pode não se sentir vivendo uma vida própria.
É possível cumprir todos os papéis e, ainda assim, experimentar uma espécie de ausência de si.
Talvez por isso algumas pessoas, ao chegar à análise, não saibam responder a uma pergunta aparentemente simples:
“O que você deseja?”
Elas sabem o que precisam fazer.
Sabem o que os outros esperam.
Sabem o que seria correto.
Mas não sabem o que desejam.
7. Jung e a sombra daquilo que recusamos reconhecer
A contribuição de Jung amplia essa reflexão por outro caminho.
O conceito de sombra pode ser compreendido como uma metáfora potente para aquilo que o sujeito não reconhece facilmente como pertencente a si.
Não se trata simplesmente de “defeitos”.
A sombra pode conter aspectos, desejos, sentimentos e potencialidades que foram rejeitados, reprimidos ou considerados incompatíveis com a imagem que construímos de nós mesmos.
A pessoa que precisa ser sempre forte pode não suportar reconhecer sua fragilidade.
Aquela que precisa parecer independente pode não admitir sua necessidade de cuidado.
Aquela que construiu uma identidade de bondade pode ter dificuldade de reconhecer sua raiva.
Aquele que precisa ser racional pode negar sua dimensão emocional.
Quanto mais rigidamente sustentamos uma determinada imagem de nós mesmos, maior pode ser a dificuldade de reconhecer aquilo que não cabe nela.
E aquilo que não encontra lugar consciente pode aparecer de outras maneiras.
Às vezes, aparece na relação com os outros.
Projetamos neles aquilo que não conseguimos reconhecer em nós.
“Ele é egoísta.”
“Ela é controladora.”
“Ele é fraco.”
“Ela é carente.”
Talvez algumas dessas percepções sejam verdadeiras.
Mas a pergunta analítica permanece:
“Por que esse aspecto do outro me mobiliza tanto?”
8. A repetição: quando mudamos de pessoa, mas continuamos ocupando o mesmo lugar
Freud chamou atenção para a compulsão à repetição.
O sujeito pode repetir experiências que conscientemente gostaria de evitar.
E isso talvez seja uma das experiências mais desconcertantes da clínica.
“Eu prometi que nunca mais me envolveria com alguém assim.”
E se envolve.
“Eu disse que nunca mais aceitaria esse tipo de tratamento.”
E aceita novamente.
“Eu não vou carregar os problemas de todo mundo.”
E, pouco depois, está novamente cuidando de todos.
“Eu não vou abandonar meus sonhos por ninguém.”
E abandona.
O sujeito pode acreditar que está escolhendo pessoas diferentes.
Mas talvez esteja escolhendo, repetidamente, uma determinada posição diante delas.
Essa é uma distinção importante.
A repetição não significa que alguém tenha um destino inevitável.
Significa que existe algo ainda não suficientemente elaborado que insiste em retornar.
Mudam os personagens.
Mudam os cenários.
Mas algo permanece.
E a análise procura escutar justamente esse “algo”.
9. Quando a escolha parece liberdade, mas é repetição
Existe uma diferença entre repetir e escolher.
A repetição tende a acontecer com uma sensação de inevitabilidade:
“É sempre assim.”
“Eu não consigo evitar.”
“Quando percebo, já aconteceu.”
A escolha, por sua vez, começa a tornar-se possível quando conseguimos reconhecer a lógica que antes nos conduzia sem que a percebêssemos.
Nesse sentido, o objetivo da análise não é ensinar o sujeito a tomar decisões perfeitas.
É ampliar seu campo de possibilidade.
Enquanto não compreendo o que me move, minha liberdade pode ser apenas aparente.
Posso acreditar que escolhi.
Mas talvez esteja apenas obedecendo a uma repetição.
10. A consequência que não queremos aceitar
Escolher implica consequência.
Mas não controlamos todas as consequências de nossas escolhas.
Podemos escolher amar alguém sem poder escolher ser correspondidos.
Podemos escolher confiar sem poder garantir que não seremos decepcionados.
Podemos escolher permanecer sem garantir que o outro irá mudar.
Podemos escolher partir e ainda assim sentir saudade.
Podemos escolher dizer “não” e perder uma relação.
Podemos escolher colocar limites e provocar descontentamento.
É justamente aqui que a aceitação se torna diferente da resignação.
Aceitar não significa gostar.
Aceitar significa reconhecer que algo é real.
Uma separação pode ser aceita sem ser desejada.
Uma perda pode ser aceita sem deixar de doer.
Uma limitação pode ser aceita sem ser considerada justa.
Uma pessoa pode ser aceita como ela é sem que isso signifique permanecer em uma relação que lhe faz mal.
Aceitação é, muitas vezes, o primeiro movimento necessário para abandonar a luta contra aquilo que já aconteceu.
11. A responsabilidade subjetiva não é culpabilidade
Talvez este seja o ponto mais delicado de todo o debate.
Falar de escolhas pode facilmente transformar-se em uma narrativa cruel:
“Você está sofrendo porque escolheu isso.”
Não.
A psicanálise não autoriza essa simplificação.
Há acontecimentos que não escolhemos.
Há violências que não provocamos.
Há perdas que não desejamos.
Há abandonos que não causamos.
Há condições sociais que nos antecedem.
Responsabilidade subjetiva é outra coisa.
Ela pergunta:
“O que faço, hoje, com aquilo que me aconteceu?”
Essa pergunta não apaga a responsabilidade de quem praticou uma violência.
Não transforma a vítima em culpada.
Não elimina a dimensão social do sofrimento.
Ela simplesmente reconhece que, em algum momento, o sujeito pode recuperar uma parcela de autoria sobre sua própria posição diante daquilo que viveu.
Não somos autores de tudo o que nos acontece.
Mas podemos, quando existem condições para isso, tornar-nos autores de parte daquilo que fazemos posteriormente com nossa história.
12. O luto pela pessoa que nunca existiu
Talvez algumas das perdas mais difíceis sejam aquelas que não correspondem exatamente à perda de uma pessoa.
São perdas de possibilidades.
Perdemos o relacionamento que imaginávamos.
A família que sonhamos.
O reconhecimento que esperávamos.
A versão do outro que acreditávamos que um dia surgiria.
E esse luto pode ser particularmente difícil porque, aparentemente, não há o que enterrar.
Como fazer luto por algo que nunca aconteceu?
A psicanálise reconhece que a realidade psíquica possui peso.
Aquilo que não aconteceu pode, ainda assim, ter ocupado um enorme espaço dentro de nós.
Por isso, abandonar uma fantasia também pode exigir elaboração.
Não estamos apenas dizendo adeus a alguém.
Estamos dizendo adeus àquilo que imaginávamos viver através daquela pessoa.
13. O preço de tentar mudar o outro
Talvez uma das maiores fontes de desgaste emocional seja insistir em uma tarefa impossível:
fazer o outro desejar aquilo que desejamos que ele deseje.
Queremos que o parceiro compreenda.
Que o filho reconheça.
Que o pai peça desculpas.
Que a mãe mude.
Que o chefe perceba.
Que o amigo retribua.
Que a pessoa que nos feriu reconheça nossa dor.
Algumas vezes isso acontecerá.
Muitas vezes, não.
E permanecer psicologicamente dependente dessa mudança significa entregar ao outro o poder de determinar quando nossa própria vida poderá continuar.
A pergunta pode então mudar:
Em vez de:
“Como faço para que ele mude?”
talvez seja:
“O que farei se ele não mudar?”
Essa pergunta é menos confortável.
Mas é infinitamente mais próxima da realidade.
14. O desejo de mudar e o medo de mudar
Existe ainda outro paradoxo.
Muitas pessoas procuram mudança, mas temem profundamente aquilo que a mudança exigirá.
Querem terminar, mas temem a solidão.
Querem estabelecer limites, mas temem perder o vínculo.
Querem mudar de profissão, mas temem fracassar.
Querem deixar de agradar, mas temem ser rejeitadas.
Querem viver de maneira mais autêntica, mas temem decepcionar aqueles que construíram determinada expectativa sobre elas.
Assim, o sintoma pode cumprir uma função.
Não apenas produzir sofrimento.
Também proteger o sujeito de alguma coisa que ele considera ainda mais ameaçadora.
É por isso que eliminar simplesmente o sintoma nem sempre significa resolver o conflito.
É preciso compreender sua função.
Perguntar:
“O que este sofrimento também está evitando?”
Essa pergunta pode abrir caminhos inesperados.
15. O sujeito contemporâneo e a obrigação de estar bem
A sociedade atual acrescentou uma exigência particularmente cruel: a obrigação de transformar sofrimento em produtividade.
É preciso superar.
Recomeçar.
Evoluir.
Perdoar.
Ser resiliente.
Pensar positivo.
Cuidar da saúde mental.
Produzir.
Empreender.
Viajar.
Treinar.
Meditar.
Amar.
E ainda parecer feliz.
Até o sofrimento parece precisar ser administrado com eficiência.
Nesse cenário, aceitar uma consequência pode parecer fracasso.
Chorar parece atraso.
Desistir parece fraqueza.
Mudar de ideia parece falta de consistência.
Precisar do outro parece dependência.
A psicanálise oferece uma espécie de contramovimento.
Ela não exige que o sujeito esteja permanentemente bem.
Ela permite que ele fale também daquilo que não funciona.
Do desejo contraditório.
Da ambivalência.
Da inveja.
Da raiva.
Da culpa.
Da vergonha.
Do medo.
Daquilo que não faz sentido.
Talvez porque a transformação subjetiva não aconteça quando eliminamos rapidamente aquilo que nos incomoda, mas quando conseguimos suportar escutá-lo.
16. O que a análise pode fazer com nossas escolhas?
A análise não promete ensinar alguém a nunca mais escolher errado.
Isso seria transformar a psicanálise em manual de comportamento.
Sua proposta é outra.
Criar condições para que o sujeito possa ouvir sua própria fala de uma maneira diferente.
Perceber suas repetições.
Reconhecer suas fantasias.
Questionar suas certezas.
Encontrar contradições.
Dar nome ao que antes aparecia apenas como sofrimento.
Reconhecer aquilo que pertence ao outro e aquilo que pertence a si.
E, principalmente, descobrir que compreender uma repetição pode abrir uma possibilidade de não repeti-la da mesma maneira.
Não se trata de controlar o inconsciente.
Trata-se de estabelecer outra relação com aquilo que, inconscientemente, nos determina.
Quando a escolha finalmente se torna possível
Talvez não sejamos tão livres quanto gostaríamos de acreditar.
Mas também não somos tão determinados quanto, às vezes, imaginamos.
Entre aquilo que nos aconteceu e aquilo que fazemos existe um espaço.
Nem sempre grande.
Nem sempre disponível.
Nem sempre acessível imediatamente.
Mas existe.
E é nesse espaço que a responsabilidade subjetiva pode nascer.
Não somos responsáveis por tudo o que recebemos da vida.
Somos, entretanto, convocados a nos posicionar diante daquilo que recebemos.
Talvez seja esse o sentido mais profundo da aceitação.
Não dizer:
“Eu escolhi tudo o que me aconteceu.”
Mas reconhecer:
“Isso aconteceu. Isso me marcou. Isso produziu consequências. E agora preciso descobrir o que faço com isso.”
Há escolhas que custam.
Há escolhas que libertam.
Há escolhas que ferem.
Há escolhas que salvam.
Há escolhas que só compreendemos depois.
E há aquelas que repetimos até que, finalmente, alguma coisa em nós consiga escutá-las.
Talvez o verdadeiro trabalho não seja aprender a escolher sempre corretamente.
Talvez seja aprender a perguntar, antes de atribuir ao destino aquilo que se repete:
“O que estou repetindo?”
Antes de tentar mudar o outro:
“O que espero encontrar no outro?”
Antes de culpar a realidade:
“Qual é a minha posição diante dela?”
Antes de aceitar qualquer consequência como inevitável:
“O que ainda pode ser transformado?”
E antes de perguntar por que alguém nos enganou:
“O que eu precisava acreditar para continuar acreditando?”
Essas perguntas não oferecem respostas prontas.
E talvez seja justamente essa a sua importância.
Porque uma análise não deveria entregar ao sujeito uma nova ilusão de controle.
Ela pode, ao contrário, ajudá-lo a suportar a falta de garantias.
A reconhecer que o outro não pode ser moldado segundo sua fantasia.
Que o desejo não é uma ordem.
Que o passado não pode ser apagado.
Que algumas perdas precisam ser elaboradas.
Que determinadas consequências precisam ser enfrentadas.
E que a vida não começa quando finalmente conseguimos controlar tudo.
A vida começa, muitas vezes, quando deixamos de exigir que a realidade seja aquilo que imaginamos e conseguimos perguntar, diante dela:
“Quem posso me tornar a partir do que é?”
Talvez seja nesse instante que a escolha deixe de ser apenas uma decisão do Eu e se transforme em um movimento de elaboração.
Não escolher contra o outro.
Não escolher para agradar o outro.
Não escolher para provar alguma coisa.
Mas escolher a partir de uma relação mais consciente com aquilo que nos habita.
Porque, no fundo, talvez a questão não seja simplesmente:
“Por que escolhi isso?”
Mas:
“Que desejo, que falta, que medo, que fantasia ou que repetição estava falando através dessa escolha?”
E talvez a pergunta mais transformadora seja aquela que permanece aberta:
“Depois de compreender isso, o que posso escolher diferente?”




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