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O peso do conforto: quando acostumar-se demais pode nos afastar de nós mesmos

Ao ler "Eu sei, mas não devia", de Marina Colasanti, uma imagem me veio à mente: a neve.



Nunca vivi uma nevasca, mas muitos relatos descrevem a neve como algo surpreendentemente confortável. Em situações extremas, ela pode parecer acolhedora, quase morna. O perigo está justamente aí: permanecer nela por tempo demais pode ter consequências graves e até fatais.


A metáfora da neve me faz pensar no conforto que, aos poucos, se transforma em conformismo.


No texto de Marina Colasanti, percebemos como o ser humano vai se acostumando lentamente às limitações, às perdas e às ausências. Primeiro deixamos de abrir as cortinas, depois deixamos de olhar para fora, e, sem perceber, esquecemos o sol, o ar e a amplidão. Não se trata apenas de hábitos cotidianos, mas de um processo silencioso de adaptação que pode nos afastar daquilo que nos mantém vivos por dentro.


O conforto é necessário. Todos precisamos de segurança, descanso e estabilidade. O problema surge quando ele elimina o atrito, o movimento, a curiosidade e a capacidade de reagir. Quando nada nos desafia, corremos o risco de “deitar na neve” e permanecer ali, imóveis, acreditando que estamos apenas descansando, quando, na verdade, estamos nos afastando da vida.


Penso também na relação entre conformismo e envelhecimento. Muitas vezes, a sociedade associa idade ao encerramento de possibilidades, como se envelhecer significasse apenas aproximar-se do fim. Entretanto, a idade é apenas um número cronológico. Quantas pessoas relatam não se sentir tão velhas quanto a certidão indica? E quantos jovens carregam uma disposição cansada, sem projetos, sem entusiasmo, como se já tivessem desistido antes do tempo?


O corpo frequentemente acompanha a mente. Quando perdemos o interesse por aprender, criar, cuidar de nós mesmos e nos relacionar, algo dentro de nós começa a se apagar. A autodestruição nem sempre acontece em um único gesto dramático. Em muitos casos, ela ocorre em parcelas, em pequenas doses diárias: negligenciar a saúde, abandonar os vínculos afetivos, desistir dos próprios sonhos, deixar de buscar ajuda quando necessário.


Isso não significa que toda acomodação seja destrutiva, nem que o sofrimento deva ser romantizado. Há pessoas enfrentando dores profundas, limitações reais e condições que exigem acolhimento e cuidado profissional. A reflexão aqui é outra: reconhecer como pequenas renúncias cotidianas podem, gradualmente, nos afastar de nossa vitalidade.

Vivemos em um mundo globalizado e tecnológico, repleto de informações e possibilidades de cuidado físico e mental. Ainda assim, é fácil esquecer-se de si mesmo. A rotina acelerada, o excesso de estímulos e a busca constante por produtividade podem nos levar a uma existência automática, em que apenas esperamos os dias passarem.


Talvez o maior alerta de Eu sei, mas não devia seja justamente este: acostumamo-nos para evitar a dor, mas, se não estivermos atentos, acabamos também evitando a própria vida. Preservamos a pele, poupamos o peito, fugimos das feridas — e, aos poucos, corremos o risco de perder o contato com aquilo que nos torna verdadeiramente humanos.


Por isso, resistir ao conformismo pode começar com gestos simples: abrir as cortinas, olhar para fora, cuidar do corpo, alimentar a mente, buscar companhia, pedir ajuda, cultivar projetos, permitir-se sentir. São pequenas escolhas que nos tiram da neve e nos lembram de que viver é mais do que apenas permanecer vivo.


Quiçá seja exatamente essa a pergunta que o texto de Marina Colasanti nos deixa: em que momentos estamos realmente vivendo, e em quais apenas nos acostumando?

Talvez a grande mensagem do texto de Marina Colasanti seja justamente essa: não permitir que a acomodação nos faça esquecer quem somos. Não aceitar passivamente aquilo que reduz nossa capacidade de sonhar, de sentir, de criar e de transformar.

Porque, às vezes, o maior risco não está nas dificuldades que enfrentamos, mas no conforto excessivo que nos convence a parar de caminhar.


E a vida, em sua essência, continua sendo o movimento.

 
 
 

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